terça-feira, 2 de junho de 2009

O Lado Obscuro da Copa (This World Sucks!)

Por Bruno


No próximo ano, teremos o maior evento do Futebol sediado pela primeira vez no continente africano, no país mais bem estruturado economicamente da região (ou pelo menos assim se espera), a República Sul Africana. Parece que esta oportunidade única, não só vai ajudar a carente população do país, tendo em vista os 10% de aidéticos, como também vai dar margem de lucro para uma reestruturação dos alicerces do país, além de expor a África como um todo, mostrando assim o quão dependente de ajuda é este conturbado continente.
É neste ínterim de bondade e candura que podemos notar que algo não está realmente certo. Não apenas a insegurança de um evento deste porte ser disputado no continente mais pobre do mundo, nem mesmo as incertezas que rondam em torno das estruturas dos estádios – apesar de a Fifa estar fiscalizando, com sua precisão inabalavelmente perfeita. Algo está intrinsecamente oculto por trás desta escolha de sede da Copa.
Em 2003, durante a V Conferência Ministerial da OMC, que se deu em Cancun, dentre outros temas (de relevância quase que exclusiva das grandes potências, que se diga de passagem), foi discutido o Fórum IBAS, cujos integrantes que dão nome à sigla são Índia, Brasil e África do Sul, onde estes propunham a quebra das patentes dos coquetéis que tratam da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (a SIDA, ou popularmente, AIDS). Porém, estas idéias dos países emergentes iam de encontro com algumas nações integrantes do Acordo Internacional sobre Direitos de Propriedade Intelectual (TRIPS), onde os royalties pagos aos criadores dos remédios eram extremamente altos, o que dificultava sua distribuição pelo Estado, responsável pelo tratamento dos infectados. Por fim, a causa acabou sendo ganha, diminuindo assim o custo dos coquetéis anti-HIV, em dólares, passou-se de 15 mil dólares/ano, para 150 dólares/ano por paciente.
Onde relacionar este ‘momento histórico’ com o campo onde desfilarão estrelas do Futebol Mundial (com uma possível exceção de Cristiano Ronaldo, pois a seleção portuguesa não vai bem nas complicadíssimas Eliminatórias Européias)? Pois bem, o fato é que os sul africanos, um dos três integrantes do IBAS, votaram contra a proposta a favor da quebra das taxas dos coquetéis. Parece estranho, mas houve uma chamativa proposta de um dos membros da TRIPS, no caso a Suíça. Para os mais desavisados, Zurique fica na Suíça, cidade esta que abriga a sede da FIFA, entidade que gerencia o futebol mundo afora. Foi então que ‘generosamente’, os suíços ofereceram aos sul africanos a Copa de 2010, o que aliás foi uma grande jogada de marketing, e estes é claro, aceitaram em troca da desistência no IBAS. Notem a tamanha imprudência dos governantes deste país, que possui mais de 5 milhões de casos de HIV.
Por ironia, a África do Sul vai sediar a Copa no próximo ano, mas também já usufrui das quebras de patente dos coquetéis anti-HIV. Foi ou não foi um bom negócio para o país do ex-presidente e ícone negro, Nelson Mandela, herói e grande opositor das nebulosas épocas de Apartheid? Agora peço a você leitor para pensar duas vezes antes de dizer que a próxima Copa será um marco histórico da evolução da civilização que quebra, por intermédio do Esporte, mais uma barreira racial, trazendo a Copa a um país de maioria negra.

Um comentário:

  1. Eu não sabia dessa história.
    Será que nenhum governante do planeta presta? Não é possível...
    Eu acho um absurdo um país de terceiro mundo sediar uma Copa do Mundo. Sei que parece estranho, mas acho que temos (nós, brasileiros, também já que em 2014 é aqui) problemas demais. Todo dinheiro investido em uma Copa poderia ir para outros fundos, seria melhor para o país.

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